MANCHETES EM VERSOS:

O LIRISMO DURO DE ROSANI ABOU ADAL

 

 

Raquel Naveira

 

 

                                                        

Jornalista é primeira profissão da escritora e poeta Rosani Abou Adal. Há mais de trinta anos dirige e redige o jornal literário “Linguagem Viva”, acompanhando e noticiando os acontecimentos da cena cultural do país, publicando, com isenção e liberdade, poemas e textos de uma legião de colaboradores espalhados pelo Brasil. É natural do jornalista ter visão aguda,  capacidade de síntese e surpresa ao criar manchetes, frases em letras garrafais, resumindo e chamando a atenção para os conteúdos das matérias. E assim, unindo talentos, dons e dores, Rosani nos traz este contundente livro de poemas curtos, econômicos, concisos, cortantes como lâminas, intitulado Manchetes em Versos.

As notícias de jornal, os fatos chocantes do dia a dia, sempre inspiraram os poetas. Manuel Bandeira, o poeta pernambucano, modernista, crítico literário e professor, escreveu, por exemplo o “Poema tirado de uma notícia de Jornal”, que diz: “João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número// Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro/ Bebeu/ Cantou/ Dançou/ Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.” E também o poema “Tragédia Brasileira”, em que conta a história de Misael, funcionário da Fazenda, 63 anos, apaixonado pela prostituta Maria Elvira. Sempre que Maria Elvira o traía, ele mudava de casa e de bairro, até que um dia, esgotado, matou-a com seis tiros. Ela então foi encontrada “caída/ em decúbito dorsal/ vestida de organdi azul.” Rosani, mergulhada numa São Paulo caótica, cruel e complexa, também descobre ao seu redor, na sua leitura de mundo, notícias e tragédias que se  transformaram em “Manchetes em Versos”.

A tônica desses versos é a solidão, a solidão de “Palavras mudas/ presas na garganta”, de uma “mulher a beber/ as próprias palavras”, “a deitar na cama/ com um homem invisível.” A incomunicação, a inexistência do outro, do companheiro, do interlocutor é dramática. Ao contrário dos poetas portugueses como Fernando Pessoa, que buscou nos heterônimos uma forma de expressão e extensão do Eu ou de Mário de Sá-Carneiro, que se colocou como o “pilar da ponte de tédio/ Que vai de mim para o outro”, Rosani trata de “Múltiplas formas/ de ser à procura do Eu”. Confessa não amar nem sequer o seu próprio reflexo, pois não há “Ninguém para amar/ Nem mesmo Narciso.”

Diante da anulação e da solidão, resta o olhar compassivo para os abandonados, os excluídos, os enfermos, os encarcerados, as crianças e os velhos, as duas frágeis pontas da vida: “Crianças raquíticas/ comem o resto/ da comida dos porcos”, ¨”Idoso a morrer só/ no leito do hospital”, enquanto os políticos e as autoridades constituídas se banqueteiam com “Lagostas regadas/ de espumante francês/ nas mesas dos Três Poderes,/ a fome devastando sonhos,/ nos pratos da periferia.” A fome dos corpos e das almas, plantada “no coração dos homens.” No seu desamparo de poeta/profeta, o medo é uma constante, “medo da própria sombra”, devastações, carências, infâncias roubadas, misto de tempestade e seca, natureza incendiada. Uma imagem condensa todo esse horror: “Dormir/ embaixo do viaduto/ sem cobertas”, sob o céu cinza e sem estrelas, “nublado de tristezas”, da grande cidade. Dói a falta de solidariedade, constatar que “ninguém estende a mão para o irmão”.

Quem conhece Rosani sabe do seu amor e identificação com os animais, principalmente os gatos, para quem leva sempre alimentos nos parques. Rosani não se conforma com os animais desprotegidos, sem carinho e sem afeto: os gatos, os cães, os peixes, os pássaros, as abelhas sufocadas por agrotóxicos. Ouve e sente na pele o clamor e o sofrimento de cada um e os humaniza, tal qual Graciliano Ramos fez com a cachorra Baleia: “Cachorro/ a babar de êxtase/ Cadela com as patas cruzadas.”

Os objetos que mais chamam a atenção da poeta são os copos e as taças, essas formas de conter o vazio: “Copo vazio/ na mesa de um bar”; “Champanhe espumante/ a taça eremita/ do Prosecco.” E há ainda um telefone mudo, computadores por onde se começa um “namoro interrompido/via internet”.

Em meio à fumaça, entre nesgas de “lilás” e “amarelo citrino”, haverá um pouco de esperança nesses versos de faca? A única “esperança é a de ser/ o que nunca foi”, é de “desvendar sonhos”, é da arte encontrar matéria-prima para finalmente existir. Mas por todo lado, só sente ausência, notas de silêncio, livros sem leitores, telas sem cores, poemas sufocados nas gavetas. Mais e mais solidão. Mais vilipêndio ao meio ambiente, ao planeta. Cortes de verbas para a saúde e a educação. Desgoverno de um povo oprimido há séculos.

No poema final surge um pouco de esperança: “Sementes brotam/ entre os concretos/ flores humanas/ nascem e florescem.” Sim, Rosani, a vida é teimosa e insiste em brotar entre as rachaduras do cimento.

 

RAQUEL NAVEIRA é escritora, professora universitária, crítica literária, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infantojuvenis. Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (onde exerce atualmente o cargo de vice-presidente), à Academia Cristã de Letras de São Paulo e ao PEN Clube do Brasil.

 

Rosani Abou Adal

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