Invisível

 

 

Rosani Abou Adal

 

Primeiro ato:

Não existe multidão nem solidão

nas sebes plantadas no jardim.

Minotauros de braços cruzados.

 

Segundo ato:

As cores dormentes e distantes,

o verão em preto e branco.

O coração, sâmovar do inverno.

 

Terceiro ato:

Nenhum habitante no mar morto.

O labirinto selvagem a naufragar,

as florestas morrem de sede.

 

Quarto ato:

A pausa em sustenido.

Nada sacia a fome,

nem mesmo Narciso.

 

Quinto ato:

Os piratas do deserto em silêncio.

O que resta é o prazer

invisível e imaginário.

 

Último ato:

Foi devorada por

Androsfinge e Hierocosfinge.

Não decifrou o enígma.

 

 

Terceira Dimensão

 

Rosani Abou Adal

 

 

A cidade nua, sem vestes e sem verde.

São Paulo dorme acompanhada da solidão.

Nada de peixes nos leitos dos rios,

nem flores e frutos nas árvores de cimento.

O amor se fragiliza e se recompõe

entre vigas de concreto e o calor humano.

Uma cidade dividida entre

a riqueza e a pobreza.

Caviar e champanha nas mesas da zona sul

e os farelos nos pratos da periferia.

Colméias nos prédios, casas,

casebres e embaixo das pontes.

A vida em contraste se anula

diante do silêncio dos homens.

Nos jardins as mansões escondem a hipocrisia.

No centro a fome planta sementes nas calçadas.

Na Praça da Sé a Catedral pede clemência

aos homens de boa vontade

e ninguém lhe dá ouvidos.

Um garoto de olhar triste implora

para comprarem lixas de unha.

Sabe, se não vender nada, enfrentará

os olhos mudos da sua mãe ao chegar em casa.

Nas escadarias do metrô um homem

a vender dois isqueiros, oito pilhas,

duas colas ao preço de um real.

Um gato faminto come e devora

a pomba que morreu atropelada.

Na outra esquina um menino pede

um prato de comida e nada consegue.

No calçadão um senhor grita pega ladrão

e ninguém para ajudá-lo.

O policial vem socorrê-lo e não alcança

o assaltante que se perde

entre o mar de camelôs e a população.

Observo a cidade em terceira dimensão

e vejo que São Paulo ainda é

o melhor lugar para se viver.

Na frieza dos concretos as flores humanas

plantam sementes de amor

em nome da Vida.

 

Retrato de Família

Rosani Abou Adal

O sangue que corre em minhas veias é sírio,
fruto de Mari Rose e Simaan.
Massabki ilumina minh’alma.
Adal, porto seguro, minha fortaleza.
Imigrantes árabes de Damasco,
Rua 25 de Março foi o começo da união.
Primeiro veio a irmã Sonia,
nove anos depois a poeta.
No bairro Belém plantaram raízes,
trabalharam bravamente na loja de armarinhos
para sustento e estudo dos filhos.
Almoço em família aos domingos,
sobre a mesa a toalha da Síria bordada a mão,
Homs, charutinho de folha de uva
e quibe na bandeja com snôbar,
pratos mais que sagrados no Natal e na Páscoa.
Lembranças da infância marcam
o desfile de bonecas no balcão da loja,
o rádio sintonizado no programa árabe,
Fairuz encantando com sua voz,
papai a ler enciclopédia,
mamãe a ouvir o cantar dos passarinhos.
O único aparelho de TV
e o acordo democrático para assistir
ao noticiário e novela das oito.
O primeiro carro, a aventura
da viagem para o Rio de Janeiro,
o bondinho, o Pão de Açúcar,
o Corcovado, o mar...
Parada em Aparecida do Norte
para pagamento da promessa da nossa mãe.
A escadaria imensa, o padre, a missa,
cabeça de cera, velas e orações.
Depois seguimos em paz para nosso lar.
Esta paz me acompanha e acalenta.
Entendi porque a Síria é minha luz, minha paz.

 

 

 

 

SAMBA DE BREQUE

Rosani Abou Adal

Um samba de breque para alegrar
o coração do trabalhador brasileiro.
Salário mínimo está curto,
não dá para se viver.
Sem cesta básica, vale transporte,
a grana só dá para comer um prato feito.
No Brasil tem Carnaval, samba, futebol,
violão, pandeiro e cavaquinho
para amenizar a tristeza do ano inteiro.
Cerveja e cachaça para não lembrar
do bolso vazio, da marmita requentada,
das filas nos hospitais,
da luta por uma vaga nas escolas,
da falta de dinheiro para pagar aluguel.
Esquecer, único remédio.
Vamos cantar samba, tomar uma loirinha,
comer tira-gosto, pular Carnaval,
assistir futebol para esquecer a corrupção,
a fome, a falta de dinheiro nos bolsos.
Vamos cantar um samba de breque
para alegrar o coração do trabalhador brasileiro.

Invisible

 

 

Translation by Teresinka Pereira

 

First act:

Neither crowd nor loneliness exist

In the garden hedges

Minotaurs with crossed arms.

 

Second act:

Sleeping and distant colors,

summer in black and white.

Heart, samovar in winter.

 

Third act:

No inhabitant in the dead sea.

The wild labyrinth drawing,

Forest dying of thirst.

 

Fourth act:

Pause in sharp.

Nothing quench hunger,

Not even Narcissus.

 

Fifth act:

Pirates of the desert in silence.

What is left is pleasure

invisible and imaginary.

 

Last act:

It was devoured by

Androsphinx and Hierosphinx.

Couldn’t decipher the enigma.

 

 

Third Dimension

 

Translated to English by Lívia Paulini

 

Undressed, the city, with no green,
São Paulo sleeps in loneliness,
with no fishes in the rivers
not even flowers and fruits on the trees of concrete.
The love is weak and reburn
between blocks of concrete and human soul.
A city divided between richness and
periferic mysery.
Caviar and champagne
on the tables of the south zone
and rest of food for the poor.
Beehive in buildings, houses,
huts and under the bridges.
Life in these contrasts nullify
in front of men’s silence.
In the gardens the mansions hide hypocrisy.
Downtown the hunger cultivate seeds on the sidewalk.
At Praça da Sé, the Cathedral, asks for mercy
to men of good will
but no one to listen.
A boy of sad eyes implore
to buy nail sandpapers
knowing later at home he will be punished
if nobody bought from him.
At the subway staircase a man
selling two lighters, eight batteries,
two colas for one real.
A hungry cat eat and devoure
a dead dove that had been run down.
On the other corner a child asks
for some food to saciate his hunger.
On the pavement a man screams:
“Get the thief!” but nobody to help him.
The policeman who came to his rescue
couldn’t reach the thief who escapes
in  the ocean of people and street vendors.
Watching the city in three dimension
I still see São Paulo,
as the best place to live.
In the coolness of the concretes, the human flowers
cultivate seeds of love
in the name of LIFE

 

FAMILY’S PORTRAIT


Translated to English by Lívia Paulini

 


The blood running in my veins is Syrian,
Marie Rose and Simaan’s offspring.
Massabki illuminate my soul.
Adal a harbor and my fortress.
Arabian imigrants from Damascus,
25th of March street, was the union start.
First came sister Sonia,
after nine years, came the poet, laureate.

Planting roots at the district of Belém,
at the supply-shop working hard
to support the study of their sons.
Sunday’s family lunch,
tablecloth of Syrian handmade embroidery,
homs, cigarettes of grape leaves,
and quibe with snôbar
served on Holy Easter and Christmas Eve.
The infancy remembrance is marked
by the dolls and the puppets at the end of the store,
the radio sintonizing arab programs,
Fairuz enchanting by his voice,
Daddy reading the encyclopedia,
Mother listening to the bird’s melodies.
The only TV set
and the diplomatic agreement to watch
the news and the soap opera at eight.
The first car, the venture
trip to Rio de Janeiro,
the street car, the sugar-low,
the Corcovado, the sea…
The stop at Aparecida do Norte,
in payment for mother's promise.
The long staircase, the priest, the Holy Mass,
a wax head, candles and prayers, after peaceful arrival at home.
This peace follows me and remarks me.
I understood now why Syria is my light and tranquillity.

 

 

 

SAMBA OF BREAK

 

 

Translated to English by Lívia Paulini

 

 

A samba of break to warm
the brazilian worker’s heart.
Minimum wage is short,
no way to live on.
Without basic food supply, voucher,
the money covers only one single feeding.
In Brazil there is Carnival, samba and soccer,
guitar, tambourine and ukulele,
to pass the sorrow for the rest of the year.
Beer and brandy to forget 
the empty valet, the lunchbox,
the waiting lines in hospitals,
the fights for a place in schools,
without money to pay the rent.
To forget it’s the only medicine.
Let’s sing samba, get a beer,
eat a snack, dance in the Carnival,
watch soccer game to forget the corruption,
the hunger, the lack of money in the pockets.
Let’s do singing a samba of brake,
to make happy
the brazilian worker’s heart.

 

Rosani Abou Adal

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