ESPELHO DE DUAS FACES

 

Caio Porfírio Carneiro

 

 

Este livro de Rosani Abou Adal, dividido em segmentos, conforme a abordagem temática dos poemas, guarda aquela conhecida homogeneidade criadora da poeta, tão sutilmente  lírica, que já a consagrou perante a crítica e o público.

Tudo que nasce do talento de Rosani é a um tempo perquirição interior e observação aguda da vida; vibração de amor, do instante erótico à sua contemplação quase divinatória; integração da própria alma à Alma da natureza e das coisas, em alcance ecológico que resiste e denuncia o vezo destruidor do homem; clamor de liberdade, no seu sentido mágico e viageiro, que a leva a outras plagas, como à procura de uma unção plena com o próprio universo; vibração do seu carma, seu id e ego maiores e inconscientes, em procura das suas raízes ancestrais, tão vívidas, como se ela própria se envolvesse num tapete mágico para uma visão e vivência amiga junto ao Nilo e às pirâmides do Egito.

A poesia de Rosani Abou Adal, toda ela, das curtas às maiores, é igualmente um espelho de duas faces, para além do que possa ela ter de multifacetada: é fotográfica e contemplativa. Ou seja: é ela mesma, poeta, e a projeção de si, não com vistas a uma imponderável continuidade da própria vida, mas um quê de busca do amor totalizante, que é, ou há de ser, a solidão somada às inquietações do mundo. O amor, aqui, é erotizante e dadivoso. A solidão, aqui, não se anula em devaneios. Há sempre um caminho de fuga. Rosani, ao mesmo tempo que expõe e mostra, contempla, sublima, vai e vem, mas sem tergiversação.

 

Presa no meu dormitório

tento dividir a solidão com o peixe

cercado de paredes de vidro.

 

Auto-retrato, um dos segmentos, não é só a visão e confissão de si própria. Soma-se a isto o que antes foi exposto na abordagem da sua poesia em conjunto.

 

Estou tão só dentro de mim

que até as estrelas emudeceram.

 

A metáfora  estelar assinala a solidão sofrida e lhe dá o anteparo para que ela, poeta, por mais que se veja só, deixe entreaberta uma visão plena de vida. É que, por outro lado, o seu veio romântico é forte, chegando, às vezes, àquela fulguração só alcançada pelos bons poetas.

Todos os blocos seguem este ritmo notável de contensão e espiralação poética. Como ela própria diz: “Sou uma eremita que divaga nas ruas, / bares, matos, casas, em todos os lugares/ nos dias sem sol, nas noites sem luar e estrelas/ em busca das belezas da vida e da alma.”

Rosani parece solfejar canções, espargir oferendas, com a mesma leveza d’alma como vai à denúncia com o aríete e o látego. Há um pouco de magia nisto. Há um pouco de mistério invisível nestes poemas. Há um pouco de prece. Há uma totalização de vida.

A Vida exsurge plena nestes poemas de versos notáveis, treliçados de Amor latejante:

 

No amanhecer, ao meio-dia,

no entardecer, no silêncio da noite,

a todo instante, a cada segundo

beijo tua face, mãos, boca...

 

E da fragilidade vai em busca da força cósmica:

 

Há momentos em que me sinto

tão forte quanto as montanhas do Tibet...

 

Existem instantes em que sou

tão grande quanto a força divina...

 

Temos, nesta Catedral do Silêncio, não só silêncio ( no seu sentido metafórico), nem só sonhos (como sugeriu o Poeta), mas uma nave ampla de pulsações poéticas que vão à alma de qualquer leitor.

 

Rosani Abou Adal

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