Pompílio Diniz - o Canto da Liberdade

 

Rosani Abou Adal

 

 

Conheci o saudoso amigo,  poeta, repentista  e declamador   Pompílio Diniz, em 1989, na antiga sede da União Brasileira de Escritores, na Rua 24 de Maio, 250 - 13º andar, em São Paulo. Ele me foi apresentado por Caio Porfírio Carneiro, no bar e restaurante da entidade que era dirigido pelo Tio Franco.   
Foram poucos meses de convivência, mas parecia nos conhecíamos de longas datas. No começo da amizade nos encontrávamos nas reuniões realizadas, toda quarta, na sede da UBE. Depois nossos encontros se tornaram mais frequentes.
Adotamos o Bar Roxinho, localizado ao lado do Bar Brahma, na Av. São João.  A cerveja, o tira-gosto e o bom papo varavam noite adentro. Na época tinha um corcel - o Johnny - que nos conduzia para todos os cantos da cidade. O nome do carro foi dado em homenagem ao compositor e artista Johnny Alf.
Pompílio Diniz nasceu em Diamante, antiga Cidade de São Paulo, na Paraíba, em 9 de julho de 1927. Trabalhou como Procurador Jurídico da Assembleia Legislativa de Goiânia e foi sócio da União Brasileira de Escritores.
Infelizmente não constam dados da sua biografia na internet. As memórias do amigo são fontes vivas de informação.
Linguagem Viva, na edição nº 6, Ano I, fevereiro de 1990, noticiou o falecimento de Pompílio Diniz ocorrido em 21 de janeiro de 1990, na Santa Casa, na Vila Buarque, em São Paulo.
Na edição nº 2, outubro de 1989, foi publicado o poema Festa de Inleição, de sua autoria.
Autor de Sol do Sertão (Edições S. C. A. B - Sociedade Cultural Artística Brasileira, 1954, Rio de Janeiro, RJ.), Mané Gonçalo Poemas - Poemas regionais nordestinos (Editora Itatiaia, Belo Horizonte, MG, 1958.), Canto da Liberdade (Poesias, 2ª edição, Editora Obelisco, 1959, São Paulo, SP; 1ª edição, Coleção Universidade do Povo, Editora Fulgor.), Salida Al Mar (Prêmio Sul Americano obtido no Concurso Literário, promovido pela Bolívia, em 1964.) e Poemas - Pompílio Diniz (Editora Quatro, Goiânia, GO, 1997, com prefácio de Jerônimo Geraldo de Queiroz da Academia Goiana de Letras.). Lançamento em disco LP, pela RGE, esgotados: Poemas folclóricos nº 1 (1956), Poemas folclóricos nº 2 (1957) e Poemas folclóricos nº3 (1958). Pela Chororó, também esgotado, o LP Chico-vai, Chico-vem - Poemas (1984).
Suas obras são raras. Somente dois exemplares do livro Poemas estão à venda no site da Estante Virtual. www.estantevirtual.com.br
Tenho o privilégio de possuir um exemplar do referido livro autografado:
“Rosani -  nesta troca de livros, deixo minhas impressões sobre a tua obra Mensagens do Momento.
Minha jovem Poetisa
Rosani Abou Adal,
‘As Mensagens do Momento’,
Que publicaste afinal:
São versos livres, suaves,
Como o voo das grandes aves
Que buscam sempre as Alturas!...
E de volta, mergulhando,
Teus versos vão penetrando
Nos corações das Criaturas!
Abraços,
Pompílio Diniz (S. Paulo, 7/9/89)”
Em matéria publicada no Jornal Terra Livre, do Partido Comunista Brasileiro - PCB, Ano XIV, Nº  128, página 2,  novembro de 1963, Pompílio Diniz afirmou: “Os meus versos são essas gotas d’água contra o grande incêndio da exploração do latifúndio, do imperialismo estrangeiro e da exploração do homem pelo homem.” E acrescentou: “Cumpro com o meu dever de poesia popular brasileiro e nacionalista. Minha poesia é do povo.” Terra Livre, fundado em 1949, parou de circular em 1964.
A mesma edição  noticiou que a primeira edição de Canto da Liberdade, lançada em 10 de setembro de 1962, com tiragem de 5 mil exemplares, ficou esgotada em 20 dias. A segunda edição, com 20 mil exemplares, foi lançada no dia 12 de outubro de 1963, no Ibirapuera, na posse das novas diretorias dos Sindicatos dos Metalúrgicos, Bancários, Têxteis e Enfermeiros.
Parte da tiragem de Canto da Liberdade foi queimada pelo Regime Militar, porque Pompílio desafiava o governo com seus repentes.
Conforme arquivo da biblioteca digital do Projeto Brasil Nunca Mais, 201 a 300, IPM 599, http://bnmdigital.mpf.mp.br/#!/, Canto da Liberdade, de Pompílio Diniz, consta da relação de livros de cunho subversivo e comunista. No anexo nº 7, Lotação DRS - 399, IPM 709, o mesmo também está na relação dos livros existentes na Biblioteca da Prefeitura de Natal e Centro de Formação de Professores. João Belline Burze, em interrogatório da 2ª Auditoria da 2ª Região Militar da Secretaria de Segurança Pública, afirmou que conhecia o poeta esquerdista Pompílio Diniz.
No Bar Roxinho contou que conseguiu fugir percorrendo o Brasil por matas, florestas e  nadou em rios até chegar na Bolívia.  
Quando voltou para São Paulo foi preso e torturado no quartel do Ibirapuera. Sua companheira - não me lembro o nome - informou seu endereço e assim foi preso.  
Mostrou-me seus dedos tortos, marcas das torturas. Ficou  meio surdo porque foi torturado, várias vezes, com dois pratos - “címbalo” instrumento de percussão - que eram tocados e batidos nos seus ouvidos. Sobreviveu às torturas. Disse que foi por Deus conseguiu resistir. Também mencionou ter sofrido perseguição do Adhemar de Barros que o ameaçou de morte se voltasse para São Paulo.
Ulisses Guimarães o ajudou e lhe deu abrigo em Goiás. Tamanha sua gratidão que publicou o Soneto - Acróstico ao ilustre brasileiro Ulisses Guimarães, na página 21, do livro Poemas.
Pompílio ficou hospedado num hotel, localizado no primeiro quarteirão da Alameda Barão de Limeira, próximo da Praça Júlio Mesquita, do jornal Folha de S.Paulo e do comitê do Adhemar de Barros Filho.
Ele me mostrou os desenhos do projeto do purificador de água que inventou e disse que ganharia muito dinheiro com isto. Veio para São Paulo vender sua ideia. Foi a última vez que nos encontramos, poucos dias antes do seu falecimento.
Preocupada com seu sumiço, fui à UBE tentar notícias. Tocou o telefone. Caio Porfírio Carneiro, secretário administrativo, atendeu. Era uma funcionária do IML informando que estava com o corpo do associado Pompílio Diniz e, que ao ver a carteirinha da União Brasileira de Escritores, tomou providências para deixá-lo na geladeira até segunda.
Caio ligou para as rádios de Campina Grande (PB), pediu que divulgassem o falecimento do poeta.  Assim a família entrou em contato com a UBE e pode liberar o corpo no Instituto Médico Legal.
Pompílio Diniz, vítima de possível assalto, próximo do hotel onde se hospedou, foi esfaqueado e não resistiu. Faleceu no dia 21 de janeiro de 1990, num domingo.
Seu Canto de Liberdade ainda está vivo em nossos corações.

 

Rosani Abou Adal

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